Podia ser comigo. E se fosse contigo?

Podia ser comigo. E se fosse contigo?

21 de Maio, 2021 2 Por Rita Leston

Acordei cansada. Tinha-me deitado tarde a trabalhar e dormido muito pouco e mal. Acordei atrasada, cansada, com pressa, a pensar que tinha de chegar a horas ao emprego e que não me queria atrasar. Foi a correria máxima.

Fiz tudo em modo automático. Banho, vestir, almoços, garagem. Faço o caminho todo em modo robótico, sem pensar no percurso que preciso de percorrer, pois já o sei quase de olhos fechados. Não disse uma palavra todo o trajecto e o rádio estava ligado, como sempre está, quando ligo o carro.

A determinada altura, quando saio na rotunda que dá acesso ao meu emprego, ouço uma voz pequenina lá atrás: “- Mamã, não vou para a escola?!”

Apenas, naquele momento, me dei conta de que o meu filho de 3 ou 4 anos estava no banco de trás e de que me estava a esquecer de o levar para a escola, indo directa para o parque de estacionamento do meu trabalho, com ele no banco de trás.

E se ele tivesse adormecido? Se ele não tivesse dito nada e eu tivesse agarrado na mala, que uso sempre no banco da frente e fosse a correr, já atrasada, para o meu posto de trabalho? E se, com os vidros fumados do carro, se ninguém o visse todo o dia? E se eu não me lembrasse?

E se fosse o meu filho a morrer por insolação, porque eu tive uma noite de cansaço extremo, porque estava no limite de forças e a ter de cumprir prazos e a não querer falhar em nada?
Acidentes acontecem. E não é só aos outros.

Não consigo criticar. Apenas ter uma dose enorme de empatia por aquela mãe que deixou a filha dentro do carro e que, suponho, deva estar à beira da loucura.
Como já ouvi, não foi ali jogar no Casino, não a deixou em casa deliberadamente ao abandono, não foi comprar droga ou divertir-se. Falhou e há-de culpar-se toda a vida por isso e, parece-me, será já castigo bastante.

Acidentes acontecem. E podiam ser contigo.
Comigo foi por pouco.

Rita Leston. E Então?