Os Filhos da Droga

Os Filhos da Droga

18 de Maio, 2021 0 Por Rita Leston

Fui daquelas crianças que sempre preferiu um livro, a ver TV. Que me escondia no quarto, quando pensavam que eu já estava a dormir, para continuar a ler e que, de manhã, fingia ainda não ter acordado para continuar a fazer o mesmo, sem ligar aos desenhos animados da televisão – ainda hoje, por mim, não a ligaria dias a fio. Isto desde que me lembro de ser gente e ainda nem saber juntar letras. Bastava-me saber de cor as histórias de banda desenhada que me liam para eu dormir, para continuar a desfolhar folhas.

Li este livro a primeira vez, provavelmente, para a maioria e para o que hoje penso, cedo demais. Tinha 10 ou 11 anos e, em minha casa, havendo livros por todo o lado, foi fácil lê-lo às escondidas dos meus pais.

Não terei percebido exactamente todo o alcance da história, foi preciso, uns anos depois voltar a lê-lo de novo, mas foi o suficiente para ganhar um medo e um respeito enorme a tudo o que estivesse relacionado com drogas. Quem sabe, por o ter lido cedo de mais, talvez tenha ficado traumatizada com metade do que li, mas ainda bem que assim foi, pois arredou-me, totalmente, de qualquer tipo de drogas e fez-me ganhar um medo inquestionável a que pudesse ficar viciada caso experimentasse, qualquer coisa que fosse. Mérito da vida real da Christiane F. que deixou transpor para o papel a sua história de vida ligada às drogas e prostituição, com apenas 13 anos.

Acho mesmo que este livro deveria pertencer ao Plano Nacional de Leitura e que se devia dar aos adolescentes, outro tipo de leitura e confiar mais no seu discernimento e capacidade crítica, bem como que eles, hoje em dia, são muito mais crescidos e informados do que éramos na idade deles.

Pela vida, perdi o livro dos meus pais que, entretanto, foi ficando comigo, mas andava há uns tempos a dizer que precisava de o comprar para o dar ao adolescente aqui de casa a ler. Já lhe falei dele algumas vezes e espero que não o atire só para o lado.

Este fim de semana, cruzei-me com ele num alfarrabista e nem hesitei. Trouxe-o logo comigo, porque, com livros, sou mesmo assim, acho que se passam de mão em mão, de vida em vida e que não precisam de ficar todos a acumular pó, nas prateleiras de casa, e bem que podem ir fazer outra cabeça sonhar e pensar. Só guardo aqueles livros que são mesmo especiais. Os outros, gosto de os devolver ao mundo e os fazer rodar por aí, para entreterem outro alguém. Reciclando e reutilizando.

Este, agora, é do meu filho. Ele já tem quase 15 anos, mas espero que se assuste tanto quanto eu, quando o li e que o marque, pelo menos, de alguma forma.

Rita Leston. E Então?