Sim, eu também #metoo

Sim, eu também #metoo

4 de Maio, 2021 0 Por Rita Leston

A Portugal parece que tudo chega um pouco atrasado. Lá por fora o movimento #metoo rebentou há quatro anos, por cá começa agora a ser falado. Desde há algum tempo que algumas, muito poucas, figuras públicas até têm levantado a questão, mas de uma forma muito leve, tão leve que quase passa despercebida.

Foi agora, nas últimas semanas que, em Portugal, várias mulheres do mundo social começaram a contar as suas histórias e a ganhar coragem para partilhar com o público as suas vivências. Depois da actriz Sofia Arruda ter tido a coragem de vir a público contar a sua história, desencadeou-se uma onda de solidariedade e de verdade, com várias figuras públicas a levantar as suas denúncias claramente e sem medos e a demonstrar que já passaram exactamente pelo mesmo.

Mas todas essas figuras públicas têm um nome, um público, um tempo de antena que faz com que sejam notadas. Dá-se-lhes uma importância maior do que à maioria da população anónima. Quem é conhecido tem voz e consegue transmitir ao público em geral as situações por que passou, mas a maioria de nós, ilustres desconhecidas e sem público, passamos exactamente pelo mesmo, sem ter hipótese de contar a nossa história e de vir a público desmascarar quem comete um crime. Sim, assédio sexual é crime. Muitas de nós passamos por isso caladas e sem contar nada a ninguém, achando que estamos sozinhas e que não vale a pena fazer nada.

E eu também passei.

E mete nojo.

Mete nojo cada sorriso falsamente moralista, que esconde um objectivo malicioso. Mete nojo a posição hierárquica que detém. Mete nojo cada tentativa de investida dissimulada. Mete nojo o “colega amigo” que só quer ajudar. Mete nojo o saber que quando passamos ao longe, a conversa que existe para o colega do lado, deixa de ser a do cordeiro sensível e passa a ser a do lobo predador, com comentários explicitamente sexuais. Mete nojo. Mete raiva. Mete pena, por não conseguirem ser mais do que isso. Apenas uns nojentos frustrados.

Mete nojo cada telefonema, com segundas intenções. Cada convite recusado, a tentar que se ceda a alguma tentação. Mete nojo o fazer-se de coitadinho, para tentar ter colinho, porque é tão bonzinho. Mete nojo aquela mão no ombro, enquanto se dá uma explicação. Mete nojo cada olhar fixo de baba a escorrer. Nojo. Raiva. E pena.

“A próxima vez que me disseres ou fizeres algo que eu ache impróprio, eu levanto-me e vou directa ao teu chefe e vou fazer queixa de ti. Mas, antes disso, passo pela tua mulher, levo-a pela mão para ela vir comigo. Experimenta só!”

Eu consegui. Eu percebi a tempo, ainda que o devesse ter percebido mais cedo. Eu não tive medo de enfrentar e de ameaçar. Mas eu sou assim, rebelde e inconsequente, sem me conseguir calar, levo o mundo à frente e tive a sorte de ter coragem de me impor. Mas, infelizmente, não tive a coragem de denunciar e guardei a história para mim, e, mais tarde, vim a saber que não fui, de todo, o único alvo.

E quantas de nós não temos coragem de fazer o outro parar?

Não te deixes intimidar, não te deixes subjugar ao que te incomoda. Não és tu que estás errada, errado é quem assedia. Essa pessoa não te está a bajular, não está a colocar-te num pedestal, não te está a ajudar, está a cometer um crime de importunação sexual.

Estas são as pessoas que têm a capacidade de nos arrasar a auto-estima, de nos destruir uma carreira, de nos causar danos na saúde mental, de nos fazer sentir vergonha e sentir culpa, de nos fazer duvidar das nossas capacidades e qualidades. Estas é que são as pessoas doentes. E nojentas!

Deveria ser a sociedade que o não permitia e já teria evoluído, deveriam ser os empregadores que puniam e tinham políticas de prevenção e sensibilização. Deveria haver uma consciencialização social diferente desta problemática, mas, enquanto o resto do mundo não evolui, cabe a cada um de nós fazer a nossa parte e evoluir mais um pouco. Tanto se formos vítimas, como se dermos conta de que quem está ao nosso lado o é, denunciar. Quem assedia, é mesmo só nojento. E criminoso.

Eu escrevi este texto no feminino, porque sou mulher. E porque, ainda assim, a maioria do assédio ainda é dirigido às mulheres, mas o contrário também é válido e também existem homens que são eles os assediados e que sofrem da mesma forma.

Sim, eu também já fui vítima de assédio. E tu, alguma vez passaste por isso?

Rita Leston. E Então?