“After Life”, ou como levar um murro no estômago e gostar!

“After Life”, ou como levar um murro no estômago e gostar!

1 de Maio, 2021 0 Por Rita Leston

E quando vivemos uma vida cheia de tudo e de quem amamos e nos sentimos realizados? Onde o amor que temos é aquele amor perfeito de real e funcional? E quando temos a certeza de que a pessoa que temos ao nosso lado é a que queremos que nos acompanhe por todo o nosso sempre? Quando a vida que temos é perfeita? E, depois, quando temos de colocar tudo em causa porque perdemos o amor da nossa vida e a razão da nossa felicidade?

Se é verdade que a televisão, em geral, não me diz muito, desde que decidi experimentar Netflix que já consegui ficar rendida a uma ou outra série, mas não me lembro de nenhuma que quisesse mesmo começar a rever do início assim que terminou. Não me recordo de mais nenhuma em que quisesse mesmo ler o guião, para memorizar tantos dos diálogos perfeitos que existem. Não me recordo de nenhuma outra em que estivesse quase constantemente com um nó na garganta e, de seguida, me desatasse a rir como que a limpar a alma das verdades da vida. É como levar um murro contínuo no estômago das minha emoções – e convicções – e ainda me rir disso.

After Life” teve esse dom. Uma mini-série inglesa, escrita, produzida e representada pelo brilhante e já sobejamente conhecido comediante, actor, produtor – entre outras coisas – Ricky Gervais. E o que eu não sabia é que uma série de humor negro, me iria pôr a pensar em quase cada cena que vai passando.

Muito brevemente, e sem spoiler alerts, a história centra-se num revoltado jornalista que, após 25 anos de um casamento dedicado e feliz, fica viúvo e decide dizer ao mundo tudo o que lhe passa na sua cabeça, sem filtros e sem pudor, como que o castigando pela morte da sua incrível esposa, que lhe deixou uns recados em vídeo como presente póstumo. Entre o humor e a dor, entre o amor e a perda, entre a vida e a morte, conseguimos identificar-nos em cada uma das cenas, sabendo que seria objectivamente a atitude que tomaríamos nas nossas vidas, se perdêssemos aquele filtro que nos faz conseguir viver em sociedade.

E a banda sonora? Algo de especial e muito bem escolhido. Nick Cave, Lou Reed, Daughter, Cat Stevens, James Taylor, entre outros. Um mimo especial, só para conhecedores e apreciadores, que nos deixa ainda mais empolgados e inseridos na história.

Agora, depois de uns curtos seis episódios, numa primeira temporada, ficou, na altura, a sensação de que era uma injustiça algo tão brilhante acabar a correr e se foi em apenas duas noites. Quando veio a segunda temporada, num dia só, vi todos os episódios juntos, com a culpa igual a quem devora um chocolate inteiro e, depois, não tem nada mais para aproveitar.

After Life” é a série que todos deveríamos ver, rever e repensar. É “só” brilhante. E, agora, vou ali rever tudo de novo outra vez enquanto a 3ª temporada não chega!