Eu, gorda, me confesso.

Eu, gorda, me confesso.

23 de Março, 2021 15 Por Rita Leston

Ao todo já devo ter perdido uns cento e cinquenta quilos! Duzentos! E não estou a exagerar!

A minha vida é uma luta comigo e com a balança. Com a comida e com a minha cabeça. Com a minha imagem e o meu reflexo. Com aquilo que faço e não devo. Com o que me apetece e esqueço. Com o que como e me arrependo.

São umas décadas a tentar sentir-me de acordo com a sociedade. A tentar manter-me confortável com a minha imagem ou, pelo menos, a tentar gostar um pouco mais de mim. A tentar comprar roupa que não me serve, pois nas lojas existem números cada vez mais pequenos. A sentir-me frustrada por ser fraca e não conseguir. A sentir-me diminuída, a sentir-me gorda, a sentir-me feia. A zangar-me comigo por não conseguir.

Quando engordo, opto por não me pesar e zangar-me com a balança. Entro em fase de não querer saber, em fase de perdido por cem, perdido por mil. Em fase de não me olhar ao espelho do pescoço para baixo. Em fase de desleixo de ter de andar sempre de marmita atrás. Em fase de uma bebida aqui, um chocolate ali e uma bolacha acolá. Para ajudar, sou gulosa e sou preguiçosa. Devoro um pacote de bolachas e fico enjoada. Como um chocolate inteiro até nausear. Quando acordo e falo comigo novamente já a balança cortou relações comigo. Um caos.

Até que a sanidade regressa a mim. Até que exista um dia em que eu sou mais forte do que um número da balança. Até que a roupa que tenho me deixe de servir, pois quase não compro roupa nova quando engordo para me obrigar a ter juízo. Até que me mentalize que é desta que tem de ser. Que tenho de cuidar mais de mim e da minha saúde, se quiser aproveitar quem tenho ao meu redor durante muito mais tempo.

E recomeço dietas. Algumas que levo até ao fim, outras em que desisto quase logo à partida. Dietas loucas. Dietas equilibradas. Dietas da moda. Dietas parvas. E de todas as vezes eu digo que é desta, que hei-de aprender. Que desta é que vai ser. Que nunca mais vou ganhar peso, porque já me sei conter. Yeah, whatever!…

Eu sei de cor todas as regras, sei muito bem o que posso ou não comer. Sei os meus horários, sei o que gosto, sei até onde posso ou devo ir. E aprendi que eu não me sei controlar sozinha e que preciso de um “polícia” para me nortear e proibir. Hoje em dia, vejo mais vezes a minha nutricionista que a maioria dos meus amigos, e já lhe deixei na balança uns 30 quilos a menos desde há uns meses para cá!

Já me olho ao espelho e consigo reconhecer-me. Já compro roupa com gosto – ou compraria se as lojas estivessem abertas e não precisasse desesperadamente de roupa nova, uns vários números abaixo, mas nem sei que número visto e preciso de experimentar. Já me sinto um bocadinho menos gorda e frustrada e o sentimento de conquista já se começa a apoderar de mim. Ainda me falta um longo caminho pela frente, mas eu hei-de chegar lá. Com calma, tranquilidade, com decisões certas e sem loucuras. E o longo caminho não é para o peso certo, que esse está praticamente no ideal, longo porque o trabalho mental é quase interminável, porque as decisões futuras são incomensuráveis, porque longo e quase interminável é o caminho da estabilidade.

Mas é desta. É desta é que é! É que isto de perder peso é uma luta para a vida. É uma aprendizagem contínua. É perceber que não é uma dieta, é um modo de vida. É ter sempre foco e determinação. É falhar e pecar, mas regressar aos trilhos logo a seguir.

É ufa! É bolas! É “raisparta” e wtf!

É a minha vida e não, tu não estás sozinha desse lado.

Mas bolas, tem de ser desta que aprendo a ter juízo!

Rita Leston. E Então?